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O comboio
2007-10-22 10:00:00
IIEntro no comboio vazio e deparo-me com um ambiente clamo e pacifico: as luzes estão apagadas e a música serena percorre as carruagens numa quietude contagiante. É o ambiente perfeito para mim, hoje, que estou pensativo, deliciosamente descansado.Subitamente, surge uma típica família portuguesa, com um filho de dez anos tipicamente agitado e enervante. Prevendo uma alteração do meu humor e atravesso duas carruagens e sento-me num lugar onde o ambiente soporífero permanece imaculado. Quando me instalo, entra em cena uma outra família, com sons e vocábulos mais preponderantes que a anterior.- Eu sento-me na janela, e eu aqui, carago está calado vocês as duas vão para aí e estejam calados, haha já viste aquele ali fora parece as barbas do Ti Toni, carago estejam calados quereis o quê já viste.Sento-me na primeira carruagem da frente, ainda sem gente. Ainda se ouve ao longe o barulho dos irmãos terríveis e dos seus progenitores. Aparece, no entanto, um casal que se sent


O comboio
2007-10-08 12:55:00
I O comboio prepara-se para partir. Sentado junto a uma janela, vejo cada vez mais gente a chegar e a fazer o mesmo ritual monótono: olham para todos os lados, fixam-se numa cadeira vazia e analisam cuidadosamente os lugares vazios em redor dela; depois de segundos intermináveis de introspecção, finalmente sentam-se e acomodam-se como se aquela cadeira de forro de pano fosse o ninho que demoraram uma vida a construir; instantes depois levantam-se e andam decididos alguns metros, repetindo a sua dança frenética. Os lugares ao meu lado vão sendo preenchidos por velhos, novos, idiotas malcriados, um homem de meia idade com um enorme símbolo dum clube de futebol a preencher a lapela – queixando-se do pouco espaço que deixo para ele se sentar, enquanto escrevo estas linhasdesde que acordei hoje de manhã que uma confusão de pessoas e pensamentos tentam tomar de assalto a minha mente, um monge quer dizer-me qualquer coisa que não entendo, parado e sereno, nas suas vestes monást


Outono
2007-09-23 10:36:00
Naquela quieta tarde adormecidaA vida despertou dum longo sono:Brotaram folhas da terra despidaE o vento varreu uma alma caída,Que renasceu com aquele Outono.Surgiste na melancolia pacienteDe uma aragem pacífica e fria.O teu gesto, sereno e ardente,Despiu as àrvores suavementeE cobriu o silêncio de poesia.Outuno, 1993 ©


A única vez
2007-08-26 23:57:00
eu sinto alguma coisa por ti e não sei bem o que fazer, tenho pegado no telefone mil vezes ao dia mas não tenho tido coragem de marcar o teu número, não sei o que pensarias se te dissesse nem sei o que faria se dissesses aquilo que penso que não farias, não sei porque me tenho sentido assim, não tenho dormido ou comido direito, sei que sinto algo por ti e não sei bem o que fazerquando encontrares um homem minha filha certifica-te que ele é real não te deixes levar pelos sentimentos o amor não é um jogo nós as mulheres somos o sexo forte nunca te deixes abateras palavras da minha mãe ainda me ecoam na cabeça como marteladas no ferro mas ao fim destes anos todos ainda passo o meu tempo a sonhar com alguém que me faça sair deste pesadelo, passo horas incontáveis a imaginar como seria se fosses tu aquele por quem espero, o tempo esvai-se em dias intermináveis e ainda não sei se passas algum minuto a pensar em mimele não vale a pena há mais peixes no mar concentra-te n


O nosso caminho
2007-08-20 11:35:00
Agora só nós é que caminhamosCom esta certeza de nunca duvidarQue não sabemos para onde vamos,Nem sabemos se iremos voltar.Agora só nós é que esculpimosA estrada que esperamos encontrarEntre o sonho que nunca reflectimosE o pesadelo que tememos espelhar.Agora só nós é que sepultamosO atalho por onde vamos a cantar,Pois percebemos que procuramosAlgo que nunca poderemos encontrar.Subitamente já não existimosNo espaço extinto deste lugar,Mas existe a poesia, que sentimos;E a vida, que vivemos a voar.Existe a bravura, que desbravamos;O medo, que temos o terror de recear;A alegria, em que agora duvidamos;E a tristeza, que nos olha a chorar.Julho, 1994 ©


Deus e o Diabo
2007-08-14 09:09:00
Naquela noite encontrei Satanás. Não é feio, ao contrário do que dizem. Falou-me de coisas do quotidiano, de coisas vulgares que se ouvem todos os dias na televisão e nos jornais. Falou-me dos desejos e ansiedades das pessoas, das pequenas verdades e das grandes mentiras, dos segredos submergidos no fundo das mentes e que voltam à superfície como monstros marinhos para assombrar a sanidade dos fracos.Contou-me que ele é o bom da fita e que Deus só dá sofrimento acrescentando ainda culpa e remorso. Fez-me ver que o inferno não tem esses preconceitos divinos e que portanto é um lugar muito melhor do que a vida terrena. Foi a partir dessa noite que fiquei a saber que o Diabo é mais piedoso do que Deus.Mas não quis acreditar na maior parte das palavras que ele me tentou impingir. No meio das divagações tratou sempre o amor como se fosse algo comercializável, como o sexo ou o prazer instantâneo. Eu não acredito nisso, não posso acreditar. Porque apesar de tudo isto que t


Olhar oculto
2007-08-11 19:31:00
Tu és aquela perfeita poesiaQue eu nunca conseguirei criar,E que só a furiosa harmoniaDa tua alma consegue espelhar.Ambos nascemos na noite friaEm que o sol parou de brilhar,E em que a lua fez a fantasiaQue eu nunca soube sepultar.Juntos existimos na alma unidaCom que exploramos a rua desertaEm busca da liberdade indefinidaQue guardas numa prisão incerta.Esta é a altura da despedida,Porque o ciclo da vida despertaSempre que tu estás adormecidaSobre a minha sepultura aberta.A noite desfalece serenamente,Mas mesmo assim eu acreditoQue tu vais viver eternamenteNo olhar oculto deste meu grito.Agora a manhã nasce impacienteE o sol repete o gesto infinitoQue eu persegui desde sempre,E que mora na alma onde habito.Março 1994 ©


Regicídio
2007-07-25 11:02:00
1 de Fevereiro. O sol brilhante do dia de Inverno torna as cores mais alegres e o frio aconchegante faz as pessoas sentirem-se mais vivas. O rio, resplandecente e pacífico, abafa a azáfama que vem da baixa da cidade. Ali ao lado, perto dos grandes edifícios dos homens, meia dúzia de crianças brincam descontraídamente.As meninas, com casacos apertados com folhinhos, saias compridas até aos pés e um chapéu a condizer, desfilam pelo passeio como se mil olhos estivessem a olhar para cada gesto seu. Os rapazes, com colete, relógio de corrente no bolso, bengala e chapéu alto, conversam sobre a menina mais bonita de entre as que passam. Para os lado da baixa, as vendedoras da rua berram com todas as forças para que todos vejam como o peixe é fresco.Entretanto, carroças passam devagar, apreciando o belo dia que Deus ofereceu às Suas criaturas. Os cavalos fazem aquele som tão característico dos cascos a baterem no solo e as rodas dos veículos gemem por entre os sulcos da estra


Escuridão
2007-07-22 14:58:00
Olá, escuridão minha amiga,Venho visitar-te novamentePorque és tu quem me abrigaQuando eu me estou ausente.A tua sombra já é tão antigaQue até nem sonho claramenteNeste pesadelo que me obrigaA estar acordado e descontente.Desculpa chamar-te assimMas se a tua luz é escura,Isso não me importa a mim,Que venho da minha sepultura.Agora estou distante de onde vimE vejo-te inocente, serena e pura,Caminhando comigo até ao fim,Eternamente à minha procura.Janeiro 1994 ©


Noite de Verão
2007-07-19 13:31:00
Lá fora a rua anoitecida está deserta, carros passam a toda a velocidade e deixam um rasto de sabor a borracha quente, gaivotas berram alto do cimo de um telhado perto da minha janela. As aves deprimidas queixam-se de um tragédia que aconteceu ali ao lado, há séculos atrás – e eu queixo-me da humanidade, das emoções infantis, da medíocridade mesquinha, das antipatias quotidianas, de tudo e de nada, do barulho da televisão que insiste em continuar ligada e dos irritantes motores metálicos dos automóveis que massacram propositadamente os meus nervos.Os berros estridentes aumentam cada vez mais e duvido agora se serão mesmo gaivotas, porque o choro aflitivo parece-se mesmo com o de crianças. Prefiro pensar que são aves, fugidas de um mar demasiado revolto, procurando sossego no local errado e protestando alto, com a coragem que não tenho, do egoísmo feroz de todos os homens. Indiferentes, carnívoros e furiosos, os carros insistem no ruído torturante que chega até mim


Ainda
2007-07-13 12:47:00
Eu ainda estou aqui escondidoNa tristeza muda do meu olhar,A pensar naquele mundo perdidoEm que me cansei de te procurar.Agora sou um pesadelo perseguidoPelo sublime sonho de imaginarQue a noite em que tenho vividoSerá o dia em que te vou criar.Sai da manhã desse novo dia,Se por acaso tu até existires,Para eu partir na tua harmoniaE para do meu ocaso te despedires.Se fores uma infeliz fantasia,Apenas te peço para extinguiresA paixão desta impulsiva poesia,Que eu sonhei para tu a sentires.Maio 1994 ©


Fugir
2007-07-10 21:33:00
Fugir daqui foi sempre um bom plano, ir para outro lado qualquer onde o céu é mais azul e as àrvores mais verdes. Sempre tive a sensação que pertencia a um sítio diferente, com um lago melodioso a refrescar um dia completamente limpo, um cheiro a natureza sem mamíferos e um vento reconfortante a inundar-me o corpo com um toque carinhoso.Esta imagem animada vem repetidamente ter comigo. Existe uma segurança perfeita que vem da convicção absoluta que pertenço ali, naquele momento e até quando eu quiser. Não vai anoitecer tão depressa mas, quando começar a ficar escuro, irei para uma pequena cabana de madeira com enormes janelas que me deixem ver a infinidade de estrelas que esperaram por mim todo o dia. A cama será um pedaço macio de algodão que irá abraçar-me e proteger-me sem me tocar. O silêncio não será pesado e vou finalmente poder adormecer em paz, porque sei que não terei mais pesadelos.Nunca duvidei de que um dia teria de tomar a tal decisão: ir embora ho


Tu e eu
2007-06-29 03:37:00
Tu foste a manhã de um diaQue nunca chegou a amanhecer.Eu fui uma noite escura e friaQue teve uma ingénua fantasiaOnde tu não me vias escurecer.Tu sonhaste uma suave sinfoniaEm que me escutaste alvorecer.Eu sonhei que afinal distinguiaSe eu não vivia ou nunca te via,Se havia de nascer ou morrer.Tu inventaste uma clara alegriaQue fez a minha sombra tremer.Eu inventei uma afogada agoniaQue manifestava o que eu sentia,Mas que nunca soubeste entender.Tu apagaste o sol daquele diaPorque me querias ver florescer.Eu apaguei a paixão que me ardiaPorque a tua luz tem a harmoniaQue a Vida nunca poderá perder.Agosto 1993 ©


As sombras da praia
2007-06-27 09:48:00
Sento-me nas rochas. A brisa fresca percorre-me a cara e inunda o meu corpo de sensações que não vivo há tanto tempo. As ondas compõem o som da eternidade sobre a areia molhada. O nevoeiro salgado da manhã traz-me os sabores exóticos do além-mar.Olha para mim de uma vez por todas. Quando morrer, não quero que te lembres de mim assim como fui, mas como poderia ter sido, como deveria ter sido, como não serei. Hoje vou sair de mim e encontrar-me ao olhar para ti. Olha para mim.Caminho descalço pela areia fina. Está húmida e fresca. Percorro as minúsculas pegadas das gaivotas. Atrás de mim, coladas a mim, perseguem-me pegadas fundas e frias, penetrando na areia com o som furioso de golpes de faca. Por mais que ande depressa, por mais que corra, perseguem-me até chegar junto da àgua.Olha para mim, mas não para o meu corpo sem rugas. Olha para a minha alma com rugas e navega nelas até ao fim do mundo. Quando lá chegares, vais encontrar-me junto à praia , a ver o pôr-do-s


O cego da Boavista
2007-06-24 07:00:00
Um velho destroço abandonadoSobe a sombria rua enoitecidaEm busca dum leito desabitadoNa reles esquina ali ao lado,Perto da longa e larga avenida.Derrama a alma sobre o chãoE cobre o corpo com um jornal.Adormece sem sentir a contriçãoCom que se arrasta a civilizaçãoDesde que criou o bem e o mal.Sonha no silêncio da fantasiaDe um lugar que nunca se avista,E acorda com o brilho da poesiaDa lua que o baptizou um diaDe "o cego da Boavista ".Nem sequer vê a àguia devoradaPor um leão frenético e faminto,No monumento da rotunda parada.Mas sente a visão fria e caladaDaquele vencido animal extinto.A mãe madrugada nasce num jazigo,Porque a noite gelada e piedosaLevou o seu amado filho consigo:A alma livre subiu a um abrigoE deixou o cadáver na rua irosa.Do meio da multidão indiferenteIrrompe um rosto sem expressãoDespindo o casaco caro e quente,E cobrindo o seu professor ausente,Que acaba de dar a última lição.Dezembro, 1993 ©


Sonho inquieto
2007-10-31 21:48:00
Numa breve manhã da minha vidaJulguei sentir a tua luz penetrarPela penumbra da alma escurecidaQue eu nunca consegui iluminar.Surgiste numa aragem destemidaQue soprou um enigma desfeito;E quando olhei a tua mão estendidaO meu pecado tornou-se perfeito.Lamentei que não estivesses perdidaNo sonho inquieto daquele meu dia,Mas louvei essa ilusão adormecidaQue despertou a tua serena harmonia.Sempre que tu descobres a vidaEu vejo a minha cegueira invisível,Mas entendo a poesia indefinidaQue tu sentiste nesse dia insensível.Abril 1994 ©


Não existes
2007-10-29 13:46:00
Hoje descobri que tu não existes,És apenas uma fantasia disfarçada,És escuridão vestida de madrugada.Por isso nunca mais adormeças aqui,Não digas que tens saudades minhas,Nem regresses para depois partires.Pensas que este poema é sobre ti,Só porque trazes um sonho antigoE levas toda a minha vida contigo.Mas lembra-te que nunca exististe,Por isso não mostres o teu sorriso,Nem te aproximes assim de mim.Só gostava de te conseguir verPerdida no meu olhar cansado,Estendida sobre o meu corpo deitado.Eu bem sei que tu não existes,Mas não me deixes aqui perdido,Que eu não sei existir sem ti.Agosto 1994 ©


O comboio
2007-11-12 11:32:00
IIEstou no comboio. Agora e sempre no comboio que pára em todas as estações – e nunca é a minha. Há uma velha louca atrás de mim a gritar palavras sem sentido, incomodando os senhores importantes e despertando risos nas crianças. Toda a gente olha para ela como se fosse um marciano engraçado, um animal do circo; mas ninguém sonha que olho para todos eles da mesma forma- todos os sítios que estão aqui nesta terra são presos coitado do outro do canil esperemos que a tropa consiga apanhá-los naturalmente achava que eu ia engraxar as botas eu vou ver se eles caem Continua a falar e a falar para todos os lados, como se aquelas palavras fossem a Verdade Absoluta que a humanidade espera ouvir há tanto tempo e ela fosse a profetiza que anuncia o fim do mundo ou o princípio de algo absolutamente belo. E anda de um lado para o outro e abre e fecha a janela e saúda toda a gente que entra e cumprimenta os homens de fato que correm apressados pelas estações e apeadeiros. Olho pa


O anjo da guarda
2008-01-30 17:48:04
Numa fria manhã de Inverno,Um velho professor de filosofiaCaminha assustado pela minha rua,Como se tivesse pressa para chegarAo fim do cruzamento desta poesia.Caminha com passos compadecidos,Lentos mas ansiosos por encontrarO velho anjo da guarda perdidoPor entre os anos que escaparamE que jamais conseguiram parar.A enorme rua ruidosa foge aflitaAo ver as nuvens descerem do céuE poisarem nas longas barbas friasDa sombra vagarosa do seu professorCoberto com um branco e frágil véu.Ninguém vê um rapaz moribundoAtravessado no meio do passeio,Mas alguém pega nele e embala-oAté enfim ouvir o último suspiroDo anjo da guarda que afinal veio.Julho, 1994 ©


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